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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Voz da Comunidade - Dona Maria do Socorro


Sabe quando as pessoas marginalizam as comunidades carentes, ou as ditas, favelas? "Ah, todo mundo é bandido", "Tá nessa vida por que quer", e por aí vai... Eu simplesmente AMO contradizer essas pessoas e jogar-lhes na cara exemplos de vida que deixam qualquer pessoa boquiaberta. Eu não nego a criminalidade em uma favela. Eu sei bem o que acontece dentro de uma comunidade carente, mas existem tantas pessoas com histórias de superação incríveis que dá orgulho de poder conhecer essas pessoas. 


É o caso da dona Maria do Socorro, mais conhecida por mim como "vizinha". Todos os dias eu passo em frente à casa dela e a vejo trabalhando arduamente nos seus recicláveis. Do outro lado da rua eu grito: "Oi vizinha!" ela me responde: "Oi vizinha! Tudo bem?" com um baita sorriso no rosto. Sempre!
Algus dias atrás, sentei com ela em frente a sua casa, no meio de sacos gigantescos de recicláveis e ouvi um pouco da sua história. É incrível as lições que você aprende com essas pessoas. "Heróis anônimos", como eu gosto de chamar.
Com vocês, dona Maria do Socorro - a vizinha.



Kelly: Vizinha, conta um pouco da sua história.
D. Socorro: Eu sou de Ataléia, BA. Quando tinha três anos de idade, minha mãe pegou meus três irmãos e foi embora, me deixando com o meu tio que me pôs para trabalhar cuidando dos filhos dele.

Kelly: Mas você só tinha três anos? Como é possível?
D. Socorro: Sim, tinha três anos e já trabalhava cuidando dos filhos do meu tio.

Kelly: Você sabe para onde sua mãe foi? Teve algum contato com ela depois disso?
D. Socorro: Não. Nunca mais a vi. Eu lembro que uns três dias antes eu vi meu pai indo embora. Ele botou a enxada nas costas e pegou meio pacotinho de sal e foi embora. Depois a minha mãe pegou meus irmãos e foi para Brasília, eu acho. Eu nunca quis saber deles, pois a minha mãe me deixou. Como que pode ela levar meus irmãos e me deixar? Eu tenho 53 anos hoje e nunca mais ouvi falar de ninguém da minha família. ( É possível ver a dor nos seus olhos marejados de lágrimas. 53 anos e ainda tanta dor pelo abandono...)

Kelly: Você passou muito tempo com o seu tio?
D. Socorro: Não. Eu apanhava muito dele. Quando eu fiquei um pouco maior, fui trabalhar em casa de família. (o "um pouquinho maior" a que ela se refere é por volta dos 5 ou 6 anos de idade).



Kelly: E como foi trabalhar para os outros?
D. Socorro: Ah, foi muito difícil. Eu trabalhava demais. Eu ainda não sabia cozinhar direito e teve um dia que meu arroz ou feijão, não lembro, ficou muito salgado e meu patrão jogou um prato de louça na minha cara. Cortou bem feio e ficou muito inchado. Eu nem fui no médico. Fiquei vários dias com meu rosto muito inchado (até hoje dá para ver uma grande cicatriz próxima ao olho). Também eu apanhava demais. Eu ainda era uma criança e não sabia fazer as coisas direito, aí eles me batiam.

Kelly: Você ficou por muito tempo nessa casa?
D. Socorro: Não. Quando eu tinha 10 para 11 anos vim para Belo Horizonte com meu irmão de criação. Quando chegamos aqui, nos separamos e eu não soube mais dele. Fiquei trabalhando em casa de família por um tempo e guardando dinheiro. Quando eu tinha onze anos consegui comprar meu primeiro barraco e fui morar sozinha. Durante a semana ficava com a família para a qual eu trabalhava e nos finais de semana ficava no meu barraco.

Kelly: Você tem uma família hoje, né?
D. Socorro: Sim. Tive 8 filhos, mas um deles morreu. Eu nunca maltratei meus filhos, pois o que eu passei na vida não desejo para ninguém. 



Kelly: O que aconteceu com o seu filho?
D. Socorro: Ele vendeu um celular para uma pessoa e foi cobrar essa pessoa e acabou levando 3 tiros no peito. Ele tinha 21 anos. Dói muito você ver seu filho morto (apenas duas vezes a expressão da D. Socorro muda extremamente e seus olhos enchem de lágrimas: quando fala do abandono da sua mãe e a morte do seu filho).

Kelly: Você foi casada?
D. Socorro: Nunca casei. Nunca nem quis saber de casamento. Quando meus namorados falavam de casamento eu botava eles para fora.

Kelly: Por quê?
D. Socorro: Ah, cansei de ver homem batendo em mulher, furando elas de faca. E eram mulheres que tinham família! Imagina eu, uma mulher sem família, sem ninguém? Poderiam me matar que ninguém iria perceber. Iria apodrecer sozinha lá no meu barraco. Não quero nem saber de casamento.



Kelly: Quando você começou a trabalhar com reciclagem?
D. Socorro: Ah, desde os 15 anos. Aonde eu estava eu sempre juntava as minhas coisas. Sempre amei trabalhar com recicláveis.

Kelly: Como é o seu trabalho hoje?
D. Socorro: Eu não tenho hora para terminar de trabalhar. Eu gosto muito do que faço. Gosto da correria, de carregar peso, de fazer amigos. Aonde eu vou estou trabalhando. Quando tem festa na comunidade as pessoas vêm aqui em casa me chamar para eu ir recolher meus recicláveis. Todo mundo aqui na comuidade me conhece e me ajuda a juntar as minhas coisas.
Tem os dias que eu saio para juntar meus recicláveis e tem os dias que eu fico em casa para separar as coisas.



Kelly: E como você faz para trazer os sacos lá de baixo?
(Como moramos em um morro, ela vai na avenida que fica "no pé do morro" para recolher as embalagens recicláveis. Juntar não é o problema, o que eu imaginava que seria uma dificuldade é subir o morro carregando os sacos gigantes de recicláveis!)
D. Socorro: Eu junto tudo o que eu posso e marco um horário com o meu vizinho para ir buscar. Eu não trabalho com o carrinho por que não tem como subir o morro carregando tanto peso. Aí o Anísio (o vizinho) vai lá e pega para mim e eu pago o combustível. Um ajuda o outro. O Anísio também trabalha com reciclagem. Tem recicláveis que eu não trabalho, aí eu dou para ele e assim a gente vai se ajudando. Nós entregamos os produtos para empresas diferentes.



Kelly: Como funciona a entrega dos seus recicláveis?
D. Socorro: Vem um caminhão a cada duas semanas para buscar tudo o que eu juntei e leva para uma empresa no Barro Preto (um bairro daqui de BH).

Kelly: Quando você descansa?
D. Socorro: No sábado eu não faço nada! É meu dia de descanso. E no domingo a noite eu vou à igreja. Eu vou à igreja três vezes por semana.

Kelly: Você gosta do seu trabalho?
D. Socorro: Eu adoro o que faço! Meu trabalho é muito precioso para mim. Peço a Deus força, coragem e disposição todos os dias, por que eu preciso de muita disposição para fazer o meu trabalho.
(Em outra ocasião em que eu conversei com ela, lembro que D. Socorro disse sobre o seu trabalho o seguinte: "Eu acho que meu trabalho é um trabalho muito digno. Reciclar lixo é como salvar uma vida. Cada vez que tiro uma garrafa de plástico da rua sei que estou salvando uma vida".)



Kelly: Qual é o seu sonho?
D. Socorro: Meu sonho é cuidar dos meus filhos, continuar trabalhando e arrumar a minha casa. Quero bater uma laje e morar em cima e deixar a parte de baixo para guardar meus recicláveis que agora ficam na rua. E quem sabe um dia ter uma lanchonete para vender salgados.



Eu encerrei a conversa com uma "Mini sessão de fotos". D. Socorro estava muito empolgada e se arrumou para fazer as fotos. Arrumou o cabelo e passou baton. Ela que decidia como queria tirar as fotos.

Foi uma conversa de cerca de 1 hora, mas que me fez admirar ainda mais essa mulher que tinha tudo para dar errado na vida, mas escolheu trabalhar e vencer na vida com o suor do seu trabalho honesto. Tenho muito orgulho dela. Para mim ela é uma vencedora!







quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

"Reciclar Lixo é Como Salvar Uma Vida" - O Ofício de Dona Maria

Dona Maria com sua família e as missionárias da Casa Luzeiro
Eu caminho apressada morro abaixo para pegar o ônibus. Não posso me atrasar. O sol forte de uma tarde de verão em BH castiga a pele e queima. Ando rápido pensando em mil coisas: o que fazer para o jantar, relembro a lista de coisas que preciso fazer no centro da cidade, penso em uma ligação que precio fazer, emails para responder e etc. De repente meu olhar é capturado por uma senhora. Dona Maria. Ela está parada ao pé do morro. Cansada, enxugando o suor do rosto e ao seu lado o seu ofício: um grande saco de garrafas pet. Um saco maior que ela. Eu nem faço idéia de como ela consegue carregar algo tão grande, sendo uma mulher tão baixinha. Ao me ver ela sorri. "Oi vizinha! Tudo bem?" eu respondo "Oi vizinha! Tudo bem e você?" ela, com sua simplicidade e seu sorriso de sempre responde "tudo bem, graças a Deus!" Ela enxuga o suor do seu rosto mais uma vez. O suor do trabalho de uma mulher digna.
Dona Maria trabalha recolhendo lixo reciclável. Várias vezes quando eu caminho em frente à sua casa, posso vê-la selecionando os recicláveis e empilhando-os em montanhas, para depois colocar tudo organizadinho dentro de grandes sacos a espera do caminhão para pegar o fruto do seu trabalho e ela receber seu suado dinheirinho. 
Uma mulher tão simples, dona Maria, mas com algo grandioso para ensinar. Uma lição que todos nós deveríamos aprender - reciclar.
Certa vez ela me disse: "Reciclar lixo é como salvar uma vida." Ela se orgulha do seu trabalho e eu me orgulho dela. Uma simples dona Maria, moradora de uma comunidade carente, mas com um amor pelo nosso planeta que jamais vi em governates e pessoas de autoridade. Ela diz: "Cada vez que recolho uma garrafa pet, eu impeço que ela caia em um bueiro e assim estou prevenindo inundações, e estou salvando vidas. Por isso sei que meu trabalho é muito digno. As pessoas me chamam de lixeira, mas eu não ligo. Sei que meu trabalho é digno."
Já faz algum tempo que quero entrevistá-la e contar para todo mundo a história da sua vida, que nunca foi fácil, mas sempre tenho um "problema". Ela e seu marido trabalham desde cedo até quase a noite e é difícil achá-los em casa. Estão sempre trabalhando!
Eu me orgulho da dona Maria e de seu ofício e creio sim, que ela está salvando vidas. Com seu trabalho de formiguinha, ela cuida do único planeta que temos. Ela está deixando sua marca na história, embora o mundo jamais conhecerá dona Maria e seu sorriso, sua alegria, seu amor a Deus e o suor do seu rosto.
Eu passo por ela naquela tarde quente de verão em BH e antes de dobrar a esquina dou mais uma espiada em dona Maria. Ela respira fundo, coloca o grande saco em suas costas e começa sua jornada morro acima. Eu penso: "Uma mulher digna salvando vidas".

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Fogos de Artifício Vistos do Camarote


É quase meia noite e eu estou devidamente preparada com minha câmera, lentes e tripé, esperando pelo momento dos fogos. A vista da cidade é maravilhosa. Uma garoa fina cai sobre nós, no escuro, mas não ligamos para isso. Estamos com o coração aquecido pela gratidão de poder estar vivo em mais um final de um ano e começo de outro. Por um instante eu olho para a cidade a minha frente e olho para o morro atrás de mim. Nesse momento de comemoração do ano que se inicia, quando o céu escuro da noite é invadido por cores e formas diversas, estamos em uma posição privilegiada. Podemos ver tudo de camarote. A Casa Luzeiro está situada no começo do morro, então quem mora mais acima deve ter uma visão melhor ainda do show de luzes. 



Meu coração se enche de alegria pela graça de Deus. Por volta de cem mil pessoas, que dia a dia levam uma vida sofrida, trabalham duro, são rejeitadas, sofrem preconceito, passam por situações tão difíceis que você e eu nem podemos imaginar, têm por alguns minutos uma visão privilegiada da cidade e seu festival de cores e beleza. Muitos aqui jamais ouviram falar de van Gogh, nem imaginam que existiu um Rembrandt ou conhecem Vermeer, mas o Grande Artista prepara momentos de beleza, como esse, para seus filhos. Por um momento o morro pode esquecer suas dores e mazelas e se juntar com sua família e amigos para observar os riscos coloridos no céu escuro. Mesmo aqueles que não tem o que comer e talvez nem o que celebrar. Mesmo eles, podem desfrutar desse espetáculo de camarote. 


O show começou e eu rapidamente comecei a clicar. A garoa se intensificou e tivemos que ir para a casa. Mas o que ficou foi a alegria de saber que nosso Criador quer que seus filhos tenham direito a beleza, mesmo os menos privilegiados. Beleza faz parte do caráter de Deus e por isso serei eternamente grata a Ele. A Ele a glória para sempre amém!